quinta-feira, 12 de junho de 2008

Parabéns Mãe

Corria o ano de 1950, são 3 horas da madrugada e um grupo de quatro mulheres, todas na casa dos 20 a 22 anos de idade, acaba de completar a compra de peixe na lota improvisada na praia. A compra é feita aos pescadores, que vendem as pequenas quantidades de pescado a que têm direito depois de este ser repartido, no final da faina. O latão de cada uma está cheio de sardinha e algum chicharro. A sardinha vai já salpicada. “Está na hora” dizem umas para as outras. Então, põem o latão à cabeça e aí vão, estrada fora. A corta-mato nalgumas zonas, noutras o caminho é estreito e arenoso. O latão pesa cerca de 20 kg e a pressa é muita. É necessário que o peixe chegue cedo ao destino.
Pelas 6h30 da manhã chegam ao Alto Foz, onde comem uma bucha numa taberna já aberta. Decidem dividir-se: duas viram para os lados de S. Bartolomeu. Já estão percorridos 12 km faltam só mais 3 km. Três léguas no total e o cansaço aperta. O Sol está quase a despontar. Vida ingrata esta de levar peixe à cabeça e a pé. Chegam à aldeia por volta das 8 horas da manhã. Uma vai para um lado, a outra para outro. Já têm fregueses certos. O cansaço é muito e ainda agora nasceu o dia.
O chicharro foi comprado aos pescadores a 5 tostões por dois pares. Quando corre bem, a venda fica na casa de 10 tostões os dois pares. Está a acabar a venda e é hora de regressar a Peniche. Encontram-se com as restantes companheiras nos sítios combinados. Chegarão a Peniche estafadas. Nos dias em que há muito chicharro, acabam por voltar à estrada nessa mesma tarde, a pé também.
Pelo caminho vão fazendo as contas ao ganho, se somarem 8 ou 10 escudos de ganho foi um grande dia, virão alegres e a contar histórias da venda.
Desculpar-me-ão por escrever esta pequena história, da qual não sou sujeito activo. Mas uma dessas mulheres é a minha mãe. Eu nasceria nesse mesmo ano, pelo que o peso que ela transportava não se limitava ao do latão de peixe, mas incluía ainda o da barriga... Era assim há mais de 50 anos. Quando não era a pé, era de carroça. E também já havia pequenas camionetas mas só para o lado das Caldas da Rainha.
Esta pequena homenagem que quero aqui prestar à minha mãe, Maria Gertrudes Vieira, que hoje completa a bonita idade de 80 anos, é uma homenagem sentida de profundo respeito por tudo o que me tem ensinado. Desde pequena passou fome, eram 4 irmãos, e não havia que comer, ela era das que tinha a incumbência de ir pedir pelas portas, esta é a história de uma mulher de armas, sem saber uma letra porque nunca haveria hipótese de ir para a escola, nunca no entanto se viu limitada a fazer as contas necessárias para o negócio ou para a vida. Viviam no Forte da Luz, aos irmãos chamavam “os pilisas”, e além de outro significado era sinal de carências de toda a ordem, mas há uma coisa que eu não sei desde que me conheço, é a fome, e alem disso quando tinha idade para estudar, mesmo sem poder, a minha mãe e o meu pai colocaram-me na então designada Escola Industrial e Comercial de Peniche.
Companheira e amiga de toda a gente, todos os que privam com ela ganham-lhe uma amizade especial, sempre trabalhou, na venda do peixe, a fazer renda de bilros, nas fábricas de peixe, tratou do meu pai quando a doença lhe bateu à porta, até ficar só, mesmo assim e como havia prometido à sua mãe, tem durante toda a vida tratado do irmão, agora ainda numa situação mais difícil. Os netos adoram-na porque foi sempre uma amiga de todos, e sempre pronta a ajudar nos momentos mais difíceis.

Este é o exemplo igual a tantos outros de pessoas anónimas, mas com tanta história para contar e tanto exemplo para transmitir. Esta é a MINHA MÃE e eu não podia deixar passar esta data em claro.
Obrigado por tudo o que me tens dado mãe, e parabéns pelos teus 80 anos.

7 comentários:

Oriops disse...

Nunca caberia aqui o ser humano maravilhoso e surpreendente que é, daí ter dificuldade em encontrar palavras. Apenas me passam pela cabeça algumas das inúmeras expressões que usa de forma a que todos se rendam ao seu encanto e fiquem bem dispostos.
O neto mais velho.

Anónimo disse...

Não há dia que passe que eu própria não desperte o riso das minhas colegas de trabalho usando expressões da avó Gertrudes! Para qualquer episódio do dia-a-dia, há sempre uma frase que podemos aplicar... e elas já sabem quem é a autora das famosas tiradas e até pedem mais! Parabéns avó! Muitos beijinhos da neta AV

Anónimo disse...

As lágrimas embaçam-me os olhos,maravilhosa a descrição que fazes da tua mãe,é assim que eu a conheço,semre alegre e bem disposta.Perto dela ninguém está triste:SEmpre pronta a ajudar quem precise.O amor que sentes por ela transparece nas tuas palavras,e podes crer que esse orgulho que sentes é exatamente o mesmo que ela sente quando fala de ti
Um beijo muito grande de parabéns para ela(não sabia que já eram tantas as primaveras passadas).Muitas felicidades para todos
Diz-lhe por favor que embora longe,a Cidália está comungando este momento com ela
Um abração

Anónimo disse...

Penso que os meus filhos já disseram tudo o que havia para dizer desta MULHER simples,honesta e sempre bem disposta.
Eu só digo OBRIGADO.
Um beijo da nora ML

elvira carvalho disse...

Embora atrasada, parabéns D. Gertrudes. A sua história de vida é uma história sofrida, como a história da minha avó, que vivendo numa aldeia de interior também vendia peixe para sobreviver, ela e os treze filhos. E ia buscá-lo, não ao Mar, mas a uma carroça que o trazia do mar até S. Pedro do Sul. Contava que chegou a carregar na cabeça a canastra com o peixe dum lado e o bebé do outro, enquanto carregava nos braços outro filho que também não andava, porque os filhos tinham à volta de um ano, a ano e meio de diferença uns dos outros.
Que Deus lhe tenha dado um excelente dia, e lhe dê vida e saúde até ao último dia de sua vida.A senhora merece-o. Parabéns, pelos anos e por ter sido quem foi e ser como é.
Francisco, meu amigo, minha mãe também fez anos há pouco. 82 anos no passado Domingo. E ao contrário dos outros anos foi um dia muito triste, pois minha mãe ensandeceu há três meses, de aflição por ver o meu pai mal e não poder fazer nada. Minha mãe está paralizada do lado esquerdo, desde que há 25 anos sofreu um AVC.
Um abraço Bom Domingo

ALBINO disse...

GRANDE MULHER A TUA MAE.
A tua homenagem e bem parecida a minha mae que tambem fez 80 anos e por isso vim a portugal
abraco

Anónimo disse...

As palavras faltam-me para descrver o quanto esta avó me ensinou, ensinou-me o gosto pelo trabalho a nunca me dar por vencida, a nunca conseguir estar parada.Ensinou-me a aceitar o que a vida nos dá com um sorriso por mais amargo que o destino seja.
Nao é a toa que todos dizem que sou igual a ti até a lavar a loiça.
Es uma mulher maravilhosa que so sabes fazer bem!Contigo aprendi tambem a perdoar a por "para trás das costa" como tu dizes.
só me resta desejar ser um bocadinho de ti para sempre.
Telma.