sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O resgate dos mineiros Chilenos de Atacama

Desde sempre mantive um enorme respeito pela profissão de mineiro, para além da de pescador, o meu pai que toda a vida foi pescador e ciente das dificuldades daquela vida cedo fez todos os possíveis para me afastar do mar, colocando-me na então Escola Industrial e Comercial.

Mesmo assim lembro-me de pensar quão difícil seria trabalhar debaixo de terra, essa sim uma profissão de alto risco.

Quando se deu o desastre na Mina San José, foi encarado como mais um desastre de trabalho numa mina, ficaram 33 mineiros soterrados, no entanto a persistência dos homens conseguiu através de perfuração, entrar em contacto com aqueles homens, enterrados vivos, a esperança renasceu e sem se saber explicar muito bem, começou a fazer parte da nossa vida quotidiana (pelo menos comigo) a situação da mina, a altura da perfuração, os percalços acontecidos no dia, não que aquelas vidas valessem mais que outras vidas, num qualquer desastre dos que estão sempre a acontecer, pelo menos na morte os homens são todos iguais, o que nos motivou a todos e contagiou foi a possibilidade de “podermos” tirar de lá aqueles homens.

Mobilizaram-se vontades, países diferentes mandaram técnicos e tecnologia, a NASA colocou-se ao dispor do governo Chileno para ajudar, os Estados Unidos forneceram máquinas, vieram técnicos de longe para as manobrarem, do Japão veio a tecnologia das comunicações, enfim houve uma aliança mundial com o Chile para o êxito da operação.

Algumas lições se podem retirar, agora que tudo chegou ao fim com sucesso.

É possível que os homens de diversos países trabalhem em comum por uma causa humanitária, utilizando toda a tecnologia mais sofisticada, quando não existem “barreiras” políticas.

É possível ver um Presidente colocar um capacete de protecção e estar presente até que o ultimo homem fosse resgatado, colocando todo o saber do seu país e recursos na resolução daquele salvamento.

É possível um grupo de 33 homens num espaço exíguo de 50 m2 sobreviver bastante tempo desde que uma liderança natural sobressaia e seja disciplinarmente organizada a sua vida, utilizando os poucos recursos com inteligência.

Quando se estava a assistir à chegada de cada mineiro e quando estes abraçavam os seus entes queridos, a todos com certeza, uma lágrima mais teimosa havia de querer saltar cá para fora, do Chile a Portugal, da Austrália aos Estados Unidos, do Japão ao Canadá, enfim todo o mundo seguiu com atenção aquele salvamento, como se todos, todo o mundo fosse também responsável por eles estarem naquela situação, parecia uma redenção, até que o ultimo homem veio para cima e o mundo respirou aliviado.

De tudo retenho cinco figuras,

o Presidente Chileno Sebastian Piñera pela sua solidariedade e disponibilidade e empenho,

Manuel González o primeiro socorrista que entrou na cápsula Fénix para descer para as profundezas da terra,

Florêncio Ávalos o primeiro homem que foi nomeado para encetar a viagem de regresso, a calma espelhada no rosto,

o último mineiro que veio para cima o Chefe de Turno e líder natural do grupo Luis Urzúa, também chamado de “Don Lucho”, o homem que organizou a vida debaixo da terra, tenho a certeza que será chamada a acções de formação para ensinar aqueles que poderão ficar em situações semelhantes,

por último o segundo homem a chegar, Mário Sepúlveda e a frase que nos transmitiu à chegada, “não nos tratem como artistas, sou apenas o Mário, trabalhador mineiro”.

3 comentários:

maria disse...

..um belo texto este que hoje partilha connosco. obrigada.
maria

Anónimo disse...

É verdade aquilo que escreves, pai. Esperemos que se consiga o mesmo tipo de cooperação e empenho para salvar agora os sete mineiros chineses.

Beijinhos,
Andreia

Albino disse...

Foi uma Licao de amor pelo proximo liderada pelo presidente do Chile com a ajuda de muitos paises....
O texto teu e mesmo fantastico..
Abraco