quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Acerca do Forte de Peniche

Está na ordem do dia a questão do destino do Forte de Peniche, já uma vez descrevi o uso dado a este Forte desde o início do Redondo até ao momento presente. No meio de ideias um pouco antagónicas importa não esquecer o seguinte:
 - Este é um Monumento Nacional, pelo que qualquer decisão vem sempre da tutela governamental, podendo de certo modo a opinião local e/ou a autarquia ter influência na decisão se for essa a disposição governamental.
Posto isto que para mim é basilar, despindo todos as vestimentas das ideologias, pensei no seguinte:
Qual foi o destino da prisão de Nelson Mandela?
 - Robben Island, ilha-prisão que manteve sequestrado Nelson Mandela durante 18 anos, situada a 20 minutos da Cidade do Cabo, não foi transformada em hotel, mas sim num memorial de homenagem da luta contra o apartheid.
Assim esta ilha-prisão agora transformada em memorial, é visitada diariamente na época alta por cerca de 2000 pessoas, onde com visita guiada é explicada como era a vida naquela prisão.
 - As memórias têm de se manter vivas, assim se fez com Auschwitz, em memória dos milhares de judeus presos e mortos neste campo de concentração, hoje transformado num museu da memória para os vindouros, não fazia sentido, transformar “aquilo” noutra coisa senão num monumento de profundo respeito pelos que sofreram e morreram às mãos dos nazis.
 - Poderia referir aqui o Edifício da Exposição Comercial de Hiroxima, cuja cúpula resistiu após a deflagração da Bomba Atómica em Hiroxima e que hoje é um memorial aos mortos e sobreviventes, um local de respeito e homenagem para os japoneses.
Da mesma maneira que não teria classificação se transformassem o Circo Romano, palco de milhares de mortes de cristãos perseguidos, num qualquer hotel de 5 estrelas.
Continuemos o nosso raciocínio e imagine-se um grande centro de reclusão e tortura de pessoas, onde fosse construído um hotel, os hóspedes desejam estar em harmonia com o local, onde anseiam por uns dias calmos e bem passados, mas, não haverá aqui uma situação contraditória? Qual a sensação de um casal que se instala neste local e sabe que no seu quarto ou ao lado, ali naquela zona, houvera pessoas que sofreram tortura, pessoas como nós, como eles, qual a sensação?
Se fosse eu não me sentiria bem, por outro lado, numa altura em que os tempos se vão escurecendo reavivando velhos fantasmas que grassaram pela Europa, é bom, diria é fundamental que a memória dos tempos seja respeitada.
Tenho amigos que pensam de modo diverso do meu, mas respeito todas as opiniões, não sigo “guias de instrução”, pelo que a minha opinião só me vincula a mim, simplesmente.

Entendi publicar este pequeno texto, que pouco poderá valer, mas é a minha opinião e acho que todos devem exercer o seu direito de cidadania, exprimindo a sua opinião.
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1 comentário:

arsenioferreira2112 disse...


Meu caro Chico,

Assino por baixo, todo o conteúdo deste simples e tão lúcido artigo sobre a fortaleza (outrora o cancro e a imagem do fascismo na nossa querida terra) que, pelas razões e exemplos que referes,são locais (cultos), onde as feridas que ficaram,jamais podem ser apagadas de um povo,de um qualquer país com memória...Abraço.