quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Há Feira em Peniche

Dia de Feira em Peniche

É um dia diferente, o movimento em Peniche de Cima contrasta com a pacatez habitual destas paragens, o portão de Peniche de Cima é um desassossego, já nem o pessoal mais idoso consegue estar calmo, mas também gostam, entramos pela feira dentro e começamos a ouvir o barulho típico, “ aqui não há chinocas é tudo nacional”, 5 euros 5, tudo a 5 euros, mais há frente noutra tenda há uma pequena discussão, “ atão você acha queu venho pra cá roubar? 10 euros é demais? Ora querem lá ver, passe bem, há mais fregueses”, vamos numa rua e já ouvimos uns gritos estridentes 3 EUROS 3, TUDO a 3, CUECAS a 3 EUROS, olhei um pouquito para a banca dos sapatos e logo o feirante se aproximou insinuante, então freguês?, um sapatinho? Ou uma botinha, pode escolher, não há pressa, é só para ver, digo eu, que continuo descontraidamente, e assim vai passando o dia, um dia que apesar de ser Outono vai bonito, com um sol brilhante e uma temperatura amena. Amanhã tudo voltará ao normal, o campo da feira será limpo enfim das caixas de sapatos e de roupas que vão ficando no chão, Peniche de Cima voltará á sua vida normal, as visitas á praia do pessoal, as conversas do pessoal mais velho ao portão, a quietude das ruas voltará.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

SIMPLEX

Pequena história que retrata o avanço da desburocratização.

Fui tratar da renovação da carta de condução por motivo de mudança de residência / Freguesia no verão passado, assim fui ao PAC (Posto Atendimento Cidadão) sito na Câmara Municipal de Peniche e tratei da dita renovação, já antes como é lógico tinha tratado da renovação do BI, uma coisa a seguir a outra.

Passados 5 meses recebi uma carta em casa para me deslocar (?) á DGV de Leiria para levantar a carta com o meu BI.

Fui hoje ao PAC para saber se era mesmo assim, se no tempo do Dificultex a carta de condução vinha por correio para casa (em carta registada) e agora com o Simplex tinha de me deslocar a Leiria só para levantar um documento.

Disseram-me então que isso acontecia porque eu não tinha apresentado o BI no acto de renovar a carta (claro que não podia pois nesta altura já eu tinha um documento provisório substituto do BI). Aqui fica pois o alerta, cidadão amigo e paciente, se fordes renovar a vossa carta de condução levai já o BI novo (claro que o «antigo» não serve) mas como, dirão vocês? Não sei digo-vos eu. Pensando bem a única alternativa é andar com a carta de condução “ilegal” até vir o novo BI!... Será?

Bem, não sei, isto agora com o Simplex é um pouco mais confuso, aqui fica o aviso portanto.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Relendo o Eça

Há dias recebi um mail com o título “Ganda Eça” a que achei imensa piada.
E já agora que estou a reler o nosso Eça de Queiroz, não resisto a publicar uma passagem de “Os Maias”
...
Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas coisas políticas, começou logo a retrair-se para o fundo da janela, limpando os vidros da luneta, recolhido, já impenetrável, no grande recato neutral que competia á Finlândia. Ega no entanto não saía do seu espanto. Mas porque caía, porque caía assim um governo com maioria nas câmaras, sossego no país, o apoio do exército, a bênção da Igreja, a protecção do Comptoir d’Escompte?
O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pêra, e murmurou esta razão:
- O Ministério estava gasto.
- Como uma vela de sebo?- exclamou Ega, rindo.
O Conde hesitou. Como uma vela de sebo não diria... Sebo subentendia obtusidade... Ora neste Ministério sobrava o talento. Incontestavelmente havia lá talentos pujantes...
- Essa é outra! – gritou Ega atirando os braços ao ar.
- É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm «imenso talento». A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injurias, têm, á parte os disparates que fazem, um «talento de primeira ordem»! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de «robustíssimos talentos»! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país é governado «com imenso talento», que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!
...
É claro que isto foi escrito no século XIX, não tem portanto nada a ver com o momento presente, para que não haja confusão.

domingo, 18 de novembro de 2007

O Sr. Américo


 Hoje vou escrever acerca do meu sogro, Américo Pereira Benedito.
Nasceu em Peniche por “acidente” em 1923, por acidente porque toda a sua família é do Algarve. Com meses de vida os pais foram para o Algarve, novamente, para Portimão e por lá ficou.
Depois de ter concluído a instrução primária foi para a profissão de marítimo mais concretamente de Atador de Redes, casou e do casamento nasceram duas filhas. Neste período jogou futebol no “Glória ou Morte” de Portimão. Foi para a Guiné onde esteve 2 anos trabalhando na mesma profissão. Veio para Peniche em 1959 com mulher e filhas, tentar a vida nestas paragens bem mais promissoras no que dizia respeito á pesca do que o Algarve.
Foi trabalhar como Atador para o “Benito” e a esposa foi para a Fábrica do Fialho. Apesar da vida dura e de parcos rendimentos de pescador conseguiu com que as filhas fossem estudar as duas para a Escola Industrial e Comercial onde concluíram os estudos. Paralelamente á actividade profissional foi Director de Campo do Grupo Desportivo de Peniche na década de 70. Depois do 25 de Abril foi dos primeiros pescadores a sindicalizar-se, aliás era o nº 1 do Sindicato dos Pescadores.
Durante todo este tempo foi fazendo redes para balizas (um dos seus passatempos) quer do Peniche quer de clubes distantes como o Portimonense e até para o Benfica graciosamente é claro, a propósito conto uma história com estas redes para a baliza do “seu” Benfica, depois de se ter esmerado a fazer as redes para as ditas balizas do clube da luz foi levá-las com outros amigos e entregou-as ao responsável da altura, nunca viu as suas redes serem utilizadas. Desiludido principalmente por vir do seu clube de coração uma vez que veio cá o sr. Manuel Damásio a um almoço organizado pela casa do Benfica aproximou-se do Sr e contou-lhe o sucedido ao que o Sr. Presidente o sossegou e disse que ía averiguar...
Também fez muitas redes para balizas de Hóquei, Andebol, Futebol de Salão para escolas, Pavilhões e outras associações.
Foi formador da Forpescas durante a década de 90, ajudando a formar dezenas e dezenas de alunos e alunas nas artes de rede de cerco, sendo ainda hoje reconhecido por muitos que hoje já são homens e mulheres devido ao seu bom carácter. No ano de 98 concorreu e ganhou a nível europeu um concurso de melhor trabalho “Modelo de arte de Pesca” – 1998 tendo apresentado o melhor trabalho, ganhando por isso o 1º prémio – Réplica do Astrolábio Português e assim como uma viagem a Bruxelas acompanhado por alguns alunos da sua turma. Este acontecimento relevante não só para ele mas também para o ensino da Arte na Forpescas nunca teve relevo quer no Jornal local como na Câmara Municipal de Peniche.
Entretanto como não gosta de estar parado apesar dos seus 84 anos vai fazendo trabalhos de miniaturas de redes e outros pequenos trabalhos que vai oferecendo quer a familiares quer a amigos.
Amigo do seu amigo, este é o resumo da história do meu sogro que eu queria registar neste meu espaço como uma pequena homenagem, no seu pequeno armazém lá continua a fazer as suas redes, em paz consigo próprio e a sua família.



segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Ilhas


"... Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado. De Inverno nenhum barco atraca ás Berlengas. Só e Deus no mais belo sítio da costa portuguesa!... Atrevo-me a falar a um velho musaranho, de focinho arreliador, que está metido no farol, de costas para o mar, fingindo que me não vê, a esfregar e a polir os metais reluzentes.
- Hem?...
- Hum!...
Rosna e não diz palavra que se entenda.
- Olá!
Olha-me com desprezo e continua a polir os metais já polidos, como se eu não existisse. Mas não desanimo facilmente e teimo:
- Que beleza han?!...
Toquei-o. O homem sacode os ombros, levanta-se, atira o pano fora, encara-me de frente, com os bigodes assanhados entre as rugas e um olho azul de faiança cheio de cólera:
- Que beleza o quê? Que beleza?... Isto?!... – E ri-se. -. O vento e o mar! Sempre o vento e o mar! O vento, que no Inverno não me deixa chegar á porta, e o mar todo o dia toda a noite a bramir! O mar desesperado, o vento desesperado... Eu não sou um faroleiro – sou um náufrago. Que beleza, hem?... Nem posso dormir! Nem dormir! Toda a noite o vento uiva, toda a noite o mar ecoa, ameaçando submergir esta ilha do diabo!"
Texto retirado de “Os Pescadores” de Raul Brandão
Quando cumpria o serviço militar estive algum (pouco) tempo nos Açores, e uma das coisas que me chamou mais a atenção foi o facto das pessoas terem uma personalidade muito própria diferente dos continentais, lembro-me por exemplo das raparigas que tinham um grande desejo com elas, sair rapidamente dali em direcção ao continente se possível para casar.
Peniche é quase uma ilha, não fosse esse pequeno istmo que dantes não existia e tínhamos o porto na Atouguia e ao longe avistava-se Peniche, uma bela ilha.
Penso que Peniche ainda não deixou de ser uma ilha, e os habitantes nunca deixaram de ser ilhéus. Desde muito novo habituei-me a ver pequenas ilhas em Peniche, Peniche de cima vs Peniche de baixo, mas havia mais ilhotas, o Clube, o célebre Clube Recreativo Penichense, sempre me foi ensinado que era só para ricos, ainda hoje, dou-me muito bem com a maior parte das pessoas que lá entram, de algumas até sou amigo e no entanto nunca perdi aquela ideia de que “é só para ricos”, e tenho alguma relutância em lá entrar, não me perguntem porquê, mas há mais ilhas, a sociedade está compartimentada em ilhazinhas, os marítimos, os terrestres, os do estado e dos bancos, os professores, os do comércio, os de cá e os rurais ou do concelho, Peniche 3, bairro da caixa, etc.
Toda a vida trabalhei fora de Peniche, saía ás 7 da manhã e entrava de noite, estive por isso afastado dessa realidade, não vou dizer se bem se mal.
Hoje estou cá, vejo mais alguma coisa do que via, apercebo-me de que, pouco mudou, em termos de mentalidade, de educação e formação, os empregos são escassos, existem 2 ou 3 empregadores em Peniche, os empregos camarários com ou sem concurso são sempre para os mesmos, pouco mudou, o cartão do partido, dos 3 partidos continua a valer muito, também neste campo todos procuram desde sempre não descurar o emprego para os naturais do concelho, o peso do voto assim obriga, a pesca definha, já nem absorve mão de obra, fazemos grandes parangonas com as realizações culturais e de mera diversão esquecendo-nos de fazer um crescimento sustentado da cultura, somos pacóvios até a dizer que somos muito bons naquilo que fazemos, a onda avassaladora de informatização da informação disponível para os cidadãos é quase como um pequeno “choque tecnológico” á Penicheira, mas o lastro é igual ao que era, gostava sinceramente de estar enganado, possivelmente já não conheço a realidade desta terra.
O 25 de Abril foi há 33 anos, os tempos mudaram, e muito, este não é um problema desta câmara nem da anterior nem da antes da anterior, é um problema de todos, autarcas, professores, empresários, cidadãos anónimos. A ver se não caímos no desabafo do faroleiro de Raul Brandão ao sentir-se “abafado” na ilha da Berlenga, não contemplando a beleza que o rodeia.
Ilhéus, temos de deixar de ser ilhéus.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Os sapatos de Mia Couto

Os sete sapatos sujos
"Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À
porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei Sete Sapatos
Sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá
muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:

- Primeiro Sapato - A ideia de que os culpados são sempre os outros;

- Segundo Sapato - A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho;

- Terceiro Sapato - O preconceito de que quem critica é um inimigo;

- Quarto Sapato - A ideia de que mudar as palavras muda a realidade;

- Quinto Sapato - A vergonha de ser pobre e o culto das aparências;

- Sexto Sapato - A passividade perante a injustiça;

- Sétimo Sapato - A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros;

O escritor moçambicano, também licenciado em Medicina e Biologia, fez uma
oração de sapiência, na abertura do ano lectivo do
Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique. Excertos desta
oração foram publicados no Courrier Internacional, nº. 0, de 2 de Abril. De 2005.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Apetece-me...

Hoje depois de ver e ouvir na Televisão uma notícia que não me agradou apetece-me ler este poema de Sophia de Mello Breyner...


Liberdade


Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.


Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

5 de Outubro de 1910 - Viva a República


República

Uma República (do latim Res publica, "coisa pública") é uma forma de governo na qual um representante, normalmente chamado presidente, é escolhido pelo povo para ser o chefe de estado, podendo ou não acumular com o poder executivo. A forma de eleição é normalmente realizada por voto livre secreto, em intervalos regulares, variando conforme o país. A origem da república está na Roma clássica, quando primeiro surgiram instituições como o Senado.

Existem hoje duas formas principais de república:
1. República presidencialista ou presidencialismo: Nesta forma de governo o presidente, escolhido pelo voto para um mandato regular, acumula as funções de Chefe de Estado e chefe de governo. Nesse sistema, para levar a cabo seu plano de governo, o presidente deve barganhar com o Legislativo caso não possua maioria;
2. República parlamentarista ou parlamentarismo: Neste caso o presidente apenas responde à chefia de Estado, estando a chefia de governo atribuída a um representante escolhido de forma indireta pelo Legislativo, normalmente chamado "premiê", "primeiro-ministro" ou ainda "chanceler" (na Alemanha).
Origem: Wikipédia

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Balanço


Vai para 2 (dois) meses que comecei com esta “aventura” do blog, está quase na altura de fazer um balanço acerca do que fazer com “isto”, se é para continuar se é para alterar o conteúdo mantendo uma exposição de quadros que vou pintando e fotos umas mais recentes e outras mais antigas, mas todas do meu arquivo.
Uma coisa é certa, aqui não se vai fazer política a favor nem contra ninguém, salvo nalguma situação excepcional, quando muito se houver alguma causa em prol da terra será tratada com o relevo e com a sabedoria de que for capaz.
Porque para mim, um blog é como se fosse um quadro de cortiça que temos na nossa sala e vamos pondo uns papeis presos com uns alfinetes, e comporta-se como um arquivo de fotos, lembranças, ideias, etc, é claro que na nossa sala só vai, quem a nossa casa vier, na Internet e honra seja feita, não há nada mais democrático que a Internet, quem quer vai ver, quem não quer não vai, há uns que querem lá voltar e outros que excluem completamente porque aquilo não lhes diz nada, por isso, temos de fazer um balanço acerca da utilidade destes post’s , valerá a pena manter um site se ninguém o visitar ou se forem só alguns elementos da família? E um ou outro amigo que nos faz o favor de lá ir espreitar? ou isto é como um jornal que se não tiver leitores não vale a pena continuar?
Também podemos dizer que isto, mesmo que ninguém veja o que lá está, é um arquivo pessoal de ideias e uma colocação de “coisas” que temos na nossa cabeça e na nossa casa (fotos, quadros) e então é uma exposição virtual, ou seja uma forma de expormos o que fazemos numa galeria que não temos, valerá a pena?
Esta é a análise que vou fazer durante uns tempos, os que visitaram este sítio podem colaborar e dizer ou ajudar-me a fazer o que for melhor, nem que o melhor seja de facto fechar.