domingo, 18 de novembro de 2007

O Sr. Américo


 Hoje vou escrever acerca do meu sogro, Américo Pereira Benedito.
Nasceu em Peniche por “acidente” em 1923, por acidente porque toda a sua família é do Algarve. Com meses de vida os pais foram para o Algarve, novamente, para Portimão e por lá ficou.
Depois de ter concluído a instrução primária foi para a profissão de marítimo mais concretamente de Atador de Redes, casou e do casamento nasceram duas filhas. Neste período jogou futebol no “Glória ou Morte” de Portimão. Foi para a Guiné onde esteve 2 anos trabalhando na mesma profissão. Veio para Peniche em 1959 com mulher e filhas, tentar a vida nestas paragens bem mais promissoras no que dizia respeito á pesca do que o Algarve.
Foi trabalhar como Atador para o “Benito” e a esposa foi para a Fábrica do Fialho. Apesar da vida dura e de parcos rendimentos de pescador conseguiu com que as filhas fossem estudar as duas para a Escola Industrial e Comercial onde concluíram os estudos. Paralelamente á actividade profissional foi Director de Campo do Grupo Desportivo de Peniche na década de 70. Depois do 25 de Abril foi dos primeiros pescadores a sindicalizar-se, aliás era o nº 1 do Sindicato dos Pescadores.
Durante todo este tempo foi fazendo redes para balizas (um dos seus passatempos) quer do Peniche quer de clubes distantes como o Portimonense e até para o Benfica graciosamente é claro, a propósito conto uma história com estas redes para a baliza do “seu” Benfica, depois de se ter esmerado a fazer as redes para as ditas balizas do clube da luz foi levá-las com outros amigos e entregou-as ao responsável da altura, nunca viu as suas redes serem utilizadas. Desiludido principalmente por vir do seu clube de coração uma vez que veio cá o sr. Manuel Damásio a um almoço organizado pela casa do Benfica aproximou-se do Sr e contou-lhe o sucedido ao que o Sr. Presidente o sossegou e disse que ía averiguar...
Também fez muitas redes para balizas de Hóquei, Andebol, Futebol de Salão para escolas, Pavilhões e outras associações.
Foi formador da Forpescas durante a década de 90, ajudando a formar dezenas e dezenas de alunos e alunas nas artes de rede de cerco, sendo ainda hoje reconhecido por muitos que hoje já são homens e mulheres devido ao seu bom carácter. No ano de 98 concorreu e ganhou a nível europeu um concurso de melhor trabalho “Modelo de arte de Pesca” – 1998 tendo apresentado o melhor trabalho, ganhando por isso o 1º prémio – Réplica do Astrolábio Português e assim como uma viagem a Bruxelas acompanhado por alguns alunos da sua turma. Este acontecimento relevante não só para ele mas também para o ensino da Arte na Forpescas nunca teve relevo quer no Jornal local como na Câmara Municipal de Peniche.
Entretanto como não gosta de estar parado apesar dos seus 84 anos vai fazendo trabalhos de miniaturas de redes e outros pequenos trabalhos que vai oferecendo quer a familiares quer a amigos.
Amigo do seu amigo, este é o resumo da história do meu sogro que eu queria registar neste meu espaço como uma pequena homenagem, no seu pequeno armazém lá continua a fazer as suas redes, em paz consigo próprio e a sua família.



segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Ilhas


"... Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado. De Inverno nenhum barco atraca ás Berlengas. Só e Deus no mais belo sítio da costa portuguesa!... Atrevo-me a falar a um velho musaranho, de focinho arreliador, que está metido no farol, de costas para o mar, fingindo que me não vê, a esfregar e a polir os metais reluzentes.
- Hem?...
- Hum!...
Rosna e não diz palavra que se entenda.
- Olá!
Olha-me com desprezo e continua a polir os metais já polidos, como se eu não existisse. Mas não desanimo facilmente e teimo:
- Que beleza han?!...
Toquei-o. O homem sacode os ombros, levanta-se, atira o pano fora, encara-me de frente, com os bigodes assanhados entre as rugas e um olho azul de faiança cheio de cólera:
- Que beleza o quê? Que beleza?... Isto?!... – E ri-se. -. O vento e o mar! Sempre o vento e o mar! O vento, que no Inverno não me deixa chegar á porta, e o mar todo o dia toda a noite a bramir! O mar desesperado, o vento desesperado... Eu não sou um faroleiro – sou um náufrago. Que beleza, hem?... Nem posso dormir! Nem dormir! Toda a noite o vento uiva, toda a noite o mar ecoa, ameaçando submergir esta ilha do diabo!"
Texto retirado de “Os Pescadores” de Raul Brandão
Quando cumpria o serviço militar estive algum (pouco) tempo nos Açores, e uma das coisas que me chamou mais a atenção foi o facto das pessoas terem uma personalidade muito própria diferente dos continentais, lembro-me por exemplo das raparigas que tinham um grande desejo com elas, sair rapidamente dali em direcção ao continente se possível para casar.
Peniche é quase uma ilha, não fosse esse pequeno istmo que dantes não existia e tínhamos o porto na Atouguia e ao longe avistava-se Peniche, uma bela ilha.
Penso que Peniche ainda não deixou de ser uma ilha, e os habitantes nunca deixaram de ser ilhéus. Desde muito novo habituei-me a ver pequenas ilhas em Peniche, Peniche de cima vs Peniche de baixo, mas havia mais ilhotas, o Clube, o célebre Clube Recreativo Penichense, sempre me foi ensinado que era só para ricos, ainda hoje, dou-me muito bem com a maior parte das pessoas que lá entram, de algumas até sou amigo e no entanto nunca perdi aquela ideia de que “é só para ricos”, e tenho alguma relutância em lá entrar, não me perguntem porquê, mas há mais ilhas, a sociedade está compartimentada em ilhazinhas, os marítimos, os terrestres, os do estado e dos bancos, os professores, os do comércio, os de cá e os rurais ou do concelho, Peniche 3, bairro da caixa, etc.
Toda a vida trabalhei fora de Peniche, saía ás 7 da manhã e entrava de noite, estive por isso afastado dessa realidade, não vou dizer se bem se mal.
Hoje estou cá, vejo mais alguma coisa do que via, apercebo-me de que, pouco mudou, em termos de mentalidade, de educação e formação, os empregos são escassos, existem 2 ou 3 empregadores em Peniche, os empregos camarários com ou sem concurso são sempre para os mesmos, pouco mudou, o cartão do partido, dos 3 partidos continua a valer muito, também neste campo todos procuram desde sempre não descurar o emprego para os naturais do concelho, o peso do voto assim obriga, a pesca definha, já nem absorve mão de obra, fazemos grandes parangonas com as realizações culturais e de mera diversão esquecendo-nos de fazer um crescimento sustentado da cultura, somos pacóvios até a dizer que somos muito bons naquilo que fazemos, a onda avassaladora de informatização da informação disponível para os cidadãos é quase como um pequeno “choque tecnológico” á Penicheira, mas o lastro é igual ao que era, gostava sinceramente de estar enganado, possivelmente já não conheço a realidade desta terra.
O 25 de Abril foi há 33 anos, os tempos mudaram, e muito, este não é um problema desta câmara nem da anterior nem da antes da anterior, é um problema de todos, autarcas, professores, empresários, cidadãos anónimos. A ver se não caímos no desabafo do faroleiro de Raul Brandão ao sentir-se “abafado” na ilha da Berlenga, não contemplando a beleza que o rodeia.
Ilhéus, temos de deixar de ser ilhéus.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Os sapatos de Mia Couto

Os sete sapatos sujos
"Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À
porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei Sete Sapatos
Sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá
muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:

- Primeiro Sapato - A ideia de que os culpados são sempre os outros;

- Segundo Sapato - A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho;

- Terceiro Sapato - O preconceito de que quem critica é um inimigo;

- Quarto Sapato - A ideia de que mudar as palavras muda a realidade;

- Quinto Sapato - A vergonha de ser pobre e o culto das aparências;

- Sexto Sapato - A passividade perante a injustiça;

- Sétimo Sapato - A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros;

O escritor moçambicano, também licenciado em Medicina e Biologia, fez uma
oração de sapiência, na abertura do ano lectivo do
Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique. Excertos desta
oração foram publicados no Courrier Internacional, nº. 0, de 2 de Abril. De 2005.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Apetece-me...

Hoje depois de ver e ouvir na Televisão uma notícia que não me agradou apetece-me ler este poema de Sophia de Mello Breyner...


Liberdade


Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.


Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

5 de Outubro de 1910 - Viva a República


República

Uma República (do latim Res publica, "coisa pública") é uma forma de governo na qual um representante, normalmente chamado presidente, é escolhido pelo povo para ser o chefe de estado, podendo ou não acumular com o poder executivo. A forma de eleição é normalmente realizada por voto livre secreto, em intervalos regulares, variando conforme o país. A origem da república está na Roma clássica, quando primeiro surgiram instituições como o Senado.

Existem hoje duas formas principais de república:
1. República presidencialista ou presidencialismo: Nesta forma de governo o presidente, escolhido pelo voto para um mandato regular, acumula as funções de Chefe de Estado e chefe de governo. Nesse sistema, para levar a cabo seu plano de governo, o presidente deve barganhar com o Legislativo caso não possua maioria;
2. República parlamentarista ou parlamentarismo: Neste caso o presidente apenas responde à chefia de Estado, estando a chefia de governo atribuída a um representante escolhido de forma indireta pelo Legislativo, normalmente chamado "premiê", "primeiro-ministro" ou ainda "chanceler" (na Alemanha).
Origem: Wikipédia

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Balanço


Vai para 2 (dois) meses que comecei com esta “aventura” do blog, está quase na altura de fazer um balanço acerca do que fazer com “isto”, se é para continuar se é para alterar o conteúdo mantendo uma exposição de quadros que vou pintando e fotos umas mais recentes e outras mais antigas, mas todas do meu arquivo.
Uma coisa é certa, aqui não se vai fazer política a favor nem contra ninguém, salvo nalguma situação excepcional, quando muito se houver alguma causa em prol da terra será tratada com o relevo e com a sabedoria de que for capaz.
Porque para mim, um blog é como se fosse um quadro de cortiça que temos na nossa sala e vamos pondo uns papeis presos com uns alfinetes, e comporta-se como um arquivo de fotos, lembranças, ideias, etc, é claro que na nossa sala só vai, quem a nossa casa vier, na Internet e honra seja feita, não há nada mais democrático que a Internet, quem quer vai ver, quem não quer não vai, há uns que querem lá voltar e outros que excluem completamente porque aquilo não lhes diz nada, por isso, temos de fazer um balanço acerca da utilidade destes post’s , valerá a pena manter um site se ninguém o visitar ou se forem só alguns elementos da família? E um ou outro amigo que nos faz o favor de lá ir espreitar? ou isto é como um jornal que se não tiver leitores não vale a pena continuar?
Também podemos dizer que isto, mesmo que ninguém veja o que lá está, é um arquivo pessoal de ideias e uma colocação de “coisas” que temos na nossa cabeça e na nossa casa (fotos, quadros) e então é uma exposição virtual, ou seja uma forma de expormos o que fazemos numa galeria que não temos, valerá a pena?
Esta é a análise que vou fazer durante uns tempos, os que visitaram este sítio podem colaborar e dizer ou ajudar-me a fazer o que for melhor, nem que o melhor seja de facto fechar.

domingo, 16 de setembro de 2007

Escola "do Filtro" - Peniche de Cima - Inauguração

Dia 16/09/2007 pelas 11 h inauguração da "nova" Escola do Filtro pelo Presidente da Câmara, estive lá e tirei algumas fotos que aqui vos mostro.

O Presidente da Câmara no uso da palavra.


 Exibição do Rancho Folclórico dos Bolhos.





Alguns pormenores do interior da escola, aproveitem todos, pais, professores e principalmente alunos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Amor é

Amor é, dar sem receber
Amor é, ouvir uma música de que se gosta
Amor é, ler um livro que nos faz sentir bem
Ser pai e mãe querendo ser filho
Lembrar as palavras que não pudemos ter ou não soubemos ter com quem já nos deixou
Apanhar com a raiva de quem adoramos pelas dificuldades da vida e mostrarmos o nosso sorriso e a nossa boa vontade
Tentar agradar a todos os nossos mesmo sabendo que é uma tarefa ciclópica
Sentir-mo-nos bem quando estamos a saborear uma bela refeição, mas lembrar-mo-nos de alguém que não está assim tão bem
Sentirmos o coração sangrar de desgosto, mas não dizermos a ninguém para não estragar momento nenhum de possível felicidade
Amar sem restrições, sem preços nem custos
É nunca estar sozinho (a), mesmo estando fechado entre quatro paredes, com as janelas corridas, com a nossa companheira (o) deitada (o) na cama da doença e depois vermos que de facto estamos sós, e choramos silenciosamente para que ninguém possa ouvir ou partilhar tamanha dor
É dar, dar sempre, sem saber se faz falta ou se ficamos sem nada
É repousar num sofá num sábado á tarde, ouvindo a nossa companheira a lidar
É termos um cão de quem gostamos
É um pássaro que voa na manhã soalheira

Francisco G. Vieira

domingo, 9 de setembro de 2007

Escola Primária "do Filtro"


Porque moro junto á Escola, porque sou de Peniche de Cima e também e principalmente porque os meus três filhos fizeram toda a Primária nesta escola tenho acompanhado com muito interesse as obras de renovação da Escola e de facto dá gosto ver como ficou, claro que as fotos que tirei são exteriores mas "dá para ver" o seu interior, por acaso o meu filho mais velho esteve cá em Peniche este fim de semana e fomos ver a Escola, vi que ficou contente. Aqui publico portanto algumas fotos do exterior da Nova Escola "do Filtro" e muitos parabéns pelo trabalho realizado.









sábado, 8 de setembro de 2007

Quadra Popular







Vós que lá do vosso império

prometeis um mundo novo












calai-vos que pode o povo

qu'rer um mundo novo a sério




António Aleixo

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Plano Ordenamento Reserva Natural Berlenga - Discussão Pública


de 04 de Setembro a 17 de Outubro de 2007

O Plano de Ordenamento da Reserva Natural das Berlengas encontra-se em discussão pública entre os dias 4 de Setembro e 17 de Outubro de 2007.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Cântico Negro


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Criança pescando


A lata do isco, a linha de seda, fim de tarde na Ponte Velha, quando lhe estava a tirar a fotografia, dissse-me que já tinha apanhado 3 peixes, onde estão perguntei fugiram disse. Fez-me lembrar os meus tempos de criança quando vinhamos brincar para a "barra nova" com os barcos feitos das latas de óleo e as redinhas com pequenas cortiças a emitar as grandes. Tempos passados.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Jardim da Prageira - um Bom Trabalho

Não sei se o nome é "Jardim da Prageira" se não, mas para o caso tanto faz, já há algum tempo que me tinha chamado a atenção para aquele aproveitamento em zona verde que me cativou desde logo e achei-o bastante bonito, mas só agora calhou tirar algumas fotos para as publicar.


É um Jardim tipo "zona húmida" muito bem circundados por uma zona pedonal.


Existe também uma zona de merendas muito bonita, com as cores e os materiais todos bem enquadráveis e sem nenhum tipo de diferenciação pictórica não aconselhável.




Situado junto ao Eco Centro de Recolha da Prageira (zona de recolha de materiais para reciclagem) ajuda a atenuar o impacto negativo que este pudesse causar. Assim as pessoas saibam estimar e de uma forma particular os jovens, já que também têm um parque de jogos no local, preservem este equipamento. Dizer bem do que é de dizer bem, apoiar o que é de apoiar.

domingo, 2 de setembro de 2007

sábado, 1 de setembro de 2007

Francisco Rocha Vieira 17/06/28 - 31/08/92


Pai, fez 15 anos que faleceste, e não encontro melhor forma de te prestar homenagem do que aqui neste meu espaço, eu sei que lerão estas palavras as pessoas que tu querias, que tu mais amavas.
Ficaste
órfão de pai com 4 anos, tiveste uma infância difícil de fome e privações de tudo, a avó Adelina ficou com 4 filhos e tinha de trabalhar para os sustentar fazendo renda de bilros, fizeste a 4ª classe e passaste com distinção, e de tal maneira que como andavas sempre descalço te ofereceram como prémio umas "alpercatas". Foste muito cedo para o mar e foi sempre essa a tua vida, tirando o serviço militar que também cumpriste. Lembro-me pai quando era pequeno de ir levar o farnel á Ribeira, mandava-me a mãe pois tu não vinhas a casa, era uma "arrasa" de chicharro e era descarregar até tarde e depois ir logo para o mar, eram quase 24 horas a trabalhar, que vida ingrata pai. Por isso, por passares o que passaste não quiseste que eu fosse para o mar e tu e a mãe fizeram o sacrifício de me pôr na Escola Industrial onde tirei o Curso Industrial, obrigado pai, sem quereres ensinaste-me o que era democracia e ditadura, com a simplicidade dos teus gestos e dos teus gostos, eras um HOMEM simples, nunca poderias conviver com holofotes, esse não era o teu timbre, antes querias ver o mar pela manhã, conviver com os teus amigos e companheiros de profissão já durante a reforma no Portão de Peniche de Cima onde hoje estão ainda alguns do teu tempo. Deste-me exemplos de que eu não esqueço, na maneira como ajudas-te a educar os teus netos, a paciência que demonstravas para eles e o carinho, eles também não o esquecem. Conversámos menos do que aquilo que devíamos, não havia muita oportunidade, talvez um dia, quem sabe, possamos pôr a conversa em dia, fazes-me falta pai.
Até sempre.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Quiiinze? Eu tenho é o dezanove…
Os anos passaram depressa, afinal. Quinze. “Quiiinze?”, perguntaria a avó com aquele tom que nos desarma sempre, obrigando-nos a rir a bandeiras despregadas mesmo quando a situação é de pesar. Como parece ser o caso. Ou talvez não seja tanto assim. Ora vejamos: O “caso” conta-se rapidamente e sem rodeios. É que não estás por cá, entre nós quero eu dizer, há 15 anos. O que às vezes se enovela na minha garganta sob a forma de nó triste.
Não estás. E como tal, não te ouvimos as palavras-mundo cheias de simplicidade aparente. Não te notamos a presença sempre discreta mas absoluta. Não te vemos o sorriso rasgado de par em par nem encontramos os solavancos da tua barriga redonda, provocados pelas gargalhadas que disparavas. Não te tocamos as rugas fundas do rosto crestado, como marcas de cordas na areia. Não te cheiramos os dedos amarelados de um tabaco ténue.
Deixei de me “baldear” às cartas porque desde os 13 não jogo à sueca. Deixei de ter parceiro para combinar truques de trunfos na mesma altura em que decidi assumir que, afinal, não tinha cócegas (o gozo da nossa brincadeira residia nisso mesmo, no facto de ser a nossa brincadeira). Já nem sequer aprecio filmes de capa e espada, embora continue a comer meloa e a gostar dela doce. Como tu.
Bem, se eu quiser ser sincera comigo (e é só isso que interessa), tenho que admitir que não deixaste de estar mas apenas de ser. A verdade é que te sinto comigo desde então. Não direi que és anjo, pois acho que não me perdoarias a atoarda. Também não és brisa celestial ou murmúrio etéreo. És, sim, uma espécie de impermeável invisível que me acompanha sempre. Proteges-me mesmo sem eu dar conta. E guias-me os passos independentemente do continente que eu pise. Na verdade, as coisas são assim mesmo e não carecem de grandes explicações.
É como se a jogar ao loto saísse o quinze em vez do almejado dezanove. E mesmo sem quinar (a avó conjugaria outro verbo hilariante…), marcaria aquele número precioso no meu cartão vermelho. Não és, mas estás. Quinze ou dezanove… Se fechar os olhos com força, estás a estender-me a mão numa praia que me é familiar. Olha… talvez faça cartão cheio!
AV