Corria o ano de 1950, são 3 horas da madrugada e um grupo de quatro mulheres, todas na casa dos 20 a 22 anos de idade, acaba de completar a compra de peixe na lota improvisada na praia. A compra é feita aos pescadores, que vendem as pequenas quantidades de pescado a que têm direito depois de este ser repartido, no final da faina. O latão de cada uma está cheio de sardinha e algum chicharro. A sardinha vai já salpicada. “Está na hora” dizem umas para as outras. Então, põem o latão à cabeça e aí vão, estrada fora. A corta-mato nalgumas zonas, noutras o caminho é estreito e arenoso. O latão pesa cerca de 20 kg e a pressa é muita. É necessário que o peixe chegue cedo ao destino.
Pelas 6h30 da manhã chegam ao Alto Foz, onde comem uma bucha numa taberna já aberta. Decidem dividir-se: duas viram para os lados de S. Bartolomeu. Já estão percorridos 12 km faltam só mais 3 km. Três léguas no total e o cansaço aperta. O Sol está quase a despontar. Vida ingrata esta de levar peixe à cabeça e a pé. Chegam à aldeia por volta das 8 horas da manhã. Uma vai para um lado, a outra para outro. Já têm fregueses certos. O cansaço é muito e ainda agora nasceu o dia.
O chicharro foi comprado aos pescadores a 5 tostões por dois pares. Quando corre bem, a venda fica na casa de 10 tostões os dois pares. Está a acabar a venda e é hora de regressar a Peniche. Encontram-se com as restantes companheiras nos sítios combinados. Chegarão a Peniche estafadas. Nos dias em que há muito chicharro, acabam por voltar à estrada nessa mesma tarde, a pé também.
Pelo caminho vão fazendo as contas ao ganho, se somarem 8 ou 10 escudos de ganho foi um grande dia, virão alegres e a contar histórias da venda.
Desculpar-me-ão por escrever esta pequena história, da qual não sou sujeito activo. Mas uma dessas mulheres é a minha mãe. Eu nasceria nesse mesmo ano, pelo que o peso que ela transportava não se limitava ao do latão de peixe, mas incluía ainda o da barriga... Era assim há mais de 50 anos. Quando não era a pé, era de carroça. E também já havia pequenas camionetas mas só para o lado das Caldas da Rainha.

Esta pequena homenagem que quero aqui prestar à minha mãe, Maria Gertrudes Vieira, que hoje completa a bonita idade de 80 anos, é uma homenagem sentida de profundo respeito por tudo o que me tem ensinado. Desde pequena passou fome, eram 4 irmãos, e não havia que comer, ela era das que tinha a incumbência de ir pedir pelas portas, esta é a história de uma mulher de armas, sem saber uma letra porque nunca haveria hipótese de ir para a escola, nunca no entanto se viu limitada a fazer as contas necessárias para o negócio ou para a vida. Viviam no Forte da Luz, aos irmãos chamavam “os pilisas”, e além de outro significado era sinal de carências de toda a ordem, mas há uma coisa que eu não sei desde que me conheço, é a fome, e alem disso quando tinha idade para estudar, mesmo sem poder, a minha mãe e o meu pai colocaram-me na então designada Escola Industrial e Comercial de Peniche.
Companheira e amiga de toda a gente, todos os que privam com ela ganham-lhe uma amizade especial, sempre trabalhou, na venda do peixe, a fazer renda de bilros, nas fábricas de peixe, tratou do meu pai quando a doença lhe bateu à porta, até ficar só, mesmo assim e como havia prometido à sua mãe, tem durante toda a vida tratado do irmão, agora ainda numa situação mais difícil. Os netos adoram-na porque foi sempre uma amiga de todos, e sempre pronta a ajudar nos momentos mais difíceis.
Este é o exemplo igual a tantos outros de pessoas anónimas, mas com tanta história para contar e tanto exemplo para transmitir. Esta é a MINHA MÃE e eu não podia deixar passar esta data em claro.
Obrigado por tudo o que me tens dado mãe, e parabéns pelos teus 80 anos.