segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

2 comentários:

elvira carvalho disse...

Um excelente poema.
Um abraço e uma boa semana

Álvaro Marques disse...

Vale a pena meditar neste poema da Sophia no seu significado e no valor da "PALAVRA", sim porque eu ainda sou do tempo do "HOMEM DE PALAVRA".
Medite-se agora um pouco na palavra "coelho" ...
Um abraço